A culpa é sempre do outro. Será?
Imagem ilustrativa.
MÔNICA BASTOS | Estava conversando com meu marido sobre pessoas, comportamentos e a forma como cada um conduz a própria vida. Em meio à conversa, veio a pergunta, direta e incômoda: — Estranho, por que elas agem assim?
A pergunta ficou. Não pela curiosidade sobre o outro, mas pelo que ela revela sobre nós mesmos. No fundo, ela nos obriga a olhar com mais atenção para um padrão que se repete em muitos adultos: o vitimismo e o hábito de transferir responsabilidades.
Diante de dificuldades, frustrações ou fracassos, é sempre mais fácil apontar para o outro. O problema é o outro, a culpa é do outro; ou seja, a vida não andou por causa do outro.
Curioso como certos comportamentos atravessam o tempo. Na infância, isso até se explica. Ao ser confrontada, a criança culpa o coleguinha, não por maldade, mas por medo. Medo de punição, de desaprovação, de não ser aceita ou simplesmente por imaturidade.
Mas, e na vida adulta? Medo de quê?
Talvez a resposta seja mais desconfortável do que parece: medo de se olhar no espelho, de reconhecer erros, de admitir falhas, de assumir as próprias escolhas e as consequências que vieram com elas. Em outras palavras, medo de reconhecer que somos responsáveis pelos próprios resultados.
Transferir a culpa pode até parecer mais fácil, mais confortável, mais leve. Mas é também mais perigoso. Porque esse conforto é ilusório e paralisante. Quando a responsabilidade não é nossa, o poder de mudança nunca será.
Quando tudo é culpa do outro, ficamos na espera de que ele mude, que peça desculpas, que conserte o que, muitas vezes, nem sabe que “estragou”. Ou pior, que nem sabe que está sendo responsabilizado por problemas que não são seus.
E talvez o mais inquietante seja perceber que isso nem sempre é apenas uma questão de caráter, mas, muitas vezes, de desenvolvimento emocional. Nem todo mundo aprende a lidar com frustração, erro e responsabilidade da forma necessária para crescer. E, sem esse aprendizado, o comportamento infantil apenas muda de cenário, mas continua existindo.
Por outro lado, quando assumimos a nossa parte, algo muda. A pergunta deixa de ser “por que fizeram isso comigo?” e passa a ser: “o que eu fiz, permiti ou ignorei para que isso acontecesse?”
E é aí que mora a virada, porque é nessa resposta que existe possibilidade de escolha, de mudança, de crescimento.
Talvez o relacionamento não tenha dado certo, a oportunidade tenha sido perdida, os vínculos estejam desgastados. Ainda assim, há uma outra pergunta que precisa ser feita com honestidade: Qual foi a minha parcela nisso? Não para carregar culpas desnecessárias, mas para assumir autoria. Porque, no fim das contas, assumir a própria responsabilidade não é sobre se culpar por tudo. É sobre reconhecer o próprio papel na própria história. É sair da posição de espectador e ocupar o lugar de quem pode, de fato, fazer algo diferente.
E talvez seja isso que mais incomoda na pergunta inicial. Porque, no fim, não é só sobre por que eles agem assim. É sobre o preço que se paga por nunca assumir a própria vida.
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