A ilusão do recomeço

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MÔNICA BASTOS | Um novo ano começa, e é curioso como muitas pessoas o enxergam como uma ruptura, quase como se a vida tivesse terminado e agora fosse possível apertar um botão de reinício. Mas na verdade, o ano novo não interrompe nada. Ele é apenas a continuação do caminho que já estávamos trilhando. 

O desejo de “recomeço” na maioria das vezes, nasce da insatisfação com alguma área da vida. Algo não vai bem, e surge a esperança de que a mudança venha, com a virada do calendário. O problema é que nem sempre há clareza sobre a raiz do que nos incomoda. Em vez disso, buscamos culpados, em vez de assumir a própria responsabilidade. Esse é primeiro passo para qualquer transformação real.

Embora, em alguns momentos, sejamos afetados por circunstâncias externas alheias ao nosso controle, a forma como lidamos com elas é sempre uma escolha nossa. É nossa responsabilidade desenvolver sabedoria, força e maturidade para responder ao que a vida nos apresenta. Nada muda sem decisão. Nada se transforma sem atitude.

Cada escolha que fazemos é uma semente lançada no solo da vida. Toda ação germina. Mais cedo ou mais tarde, a colheita chega, boa ou ruim. 

Ainda assim, a ideia de que “colhemos o que plantamos” quase sempre é usada para apontar o outro. Dizemos isso quando alguém nos machuca, nos ataca, nos apunhala pelas costas, nos decepciona, como se a lei da colheita não se aplicasse também a nós.

Fala-se muito em maldade, inveja e injustiça, mas pouco se fala em plantio consciente. Poucos enxergam a própria vida como um projeto em construção, que exige ações diárias, consistentes e intencionais. 

Se não estamos satisfeitos com amizades, relacionamentos, carreira, espiritualidade ou finanças, a mudança não vem do acaso. Ela nasce de decisões diferentes e novas atitudes. Quem planta, colhe. Não há exceção.

Mudar a realidade exige plantio, e plantio exige tempo, paciência e dedicação. 

Alguns dos meus familiares trabalham na roça, e é fácil perceber como o dia deles começa cedo e termina tarde. O cansaço é tanto que não sobra energia para cuidar da vida dos outros. 

Há uma lição nisso: quem está verdadeiramente comprometido com a própria colheita não tem 'tempo' para se ocupar do campo alheio.

Não é possível viver atento demais à vida dos outros e, ao mesmo tempo, ser bem-sucedido na própria. Essa conta não fecha. Transformar a própria realidade exige foco quase exclusivo nos próprios propósitos.

Todo ano é, ao mesmo tempo é de colheita e plantio. Colhemos o que semeamos nos anos anteriores e lançamos as sementes do que queremos viver adiante. Se queremos mudar a nossa realidade, precisamos aprender a investir nela. O futuro não nasce do calendário. Ele nasce das escolhas que fazemos hoje.

Se neste novo ano nada for feito para mudar a nossa realidade, o tempo seguirá seu curso e tudo continuará exatamente como está. O calendário vai virar, os anos vão passar, mas a vida permanecerá no mesmo lugar. Sem novas decisões, não há novas colheitas. O que se repete não é o ano, é o ciclo. E ciclos só se rompem quando mudamos de atitude.