Enquanto a vida acontece
Imagem ilustrativa.
MÔNICA BASTOS | Há uma pergunta que talvez devêssemos fazer com mais frequência: Como foi o meu dia?
Antes mesmo de levantar, o telefone nos informa o que aconteceu enquanto dormíamos. Depois vêm os compromissos, o trabalho, as decisões. Uma tarefa termina e outra já está esperando.
Chegamos ao fim do dia cansados, com a sensação de dever cumprido. Mas, às vezes, fica uma estranha impressão de vazio.
Fiz tanta coisa. Mas onde eu estava enquanto tudo isso acontecia?
A vida exige responsabilidade. Há coisas que precisam ser feitas, mesmo quando não estamos dispostos. O problema começa quando dar conta passa a ser sinônimo de viver. Quando o objetivo de cada dia se resume a chegar ao fim dele. Quando descansamos apenas para conseguir trabalhar novamente. Quando esperamos as férias para respirar e a próxima conquista para comemorar.
Mas a vida não começa depois que resolvemos tudo. Ela acontece.
No café que tomamos sem sentir o gosto. Na conversa que ouvimos pela metade porque já estamos pensando no que precisamos fazer depois. Nos filhos que crescem enquanto estamos ocupados demais tentando garantir que nada lhes falte. Na pessoa que amamos, sentada ao lado, enquanto nossa cabeça está em algum lugar muito distante.
Temos cada vez mais maneiras de economizar tempo e, ainda assim, cada vez menos tempo para perceber que estamos vivos. Muitas tarefas se tornaram mais rápidas. Mas a vida continua tendo seu próprio ritmo.
Uma conversa precisa de tempo. Uma árvore não cresce mais depressa porque estamos com pressa. E talvez nós também não.
Vivemos, como se tudo pudesse ser acelerado. E, nessa corrida, podemos cometer o erro de confundir movimento com vida.
Estar sempre fazendo alguma coisa não significa estar caminhando na direção certa.
Talvez por isso algumas pessoas consigam tudo aquilo que imaginaram e, ainda assim, sintam que alguma coisa está faltando. Não porque escolheram errado, mas talvez, porque, durante a caminhada, ficaram tão preocupadas em chegar que esqueceram de olhar ao redor.
Não são os grandes acontecimentos que formam uma vida. E talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis que podemos fazer a nós mesmos: Estou construindo uma vida que preciso administrar ou uma vida que desejo realmente experimentar?
A vida está acontecendo agora. Enquanto você lê estas palavras. Enquanto uma pessoa que você ama envelhece. Enquanto seus filhos crescem. Enquanto o tempo, continua fazendo aquilo que sempre fez: passar.
Talvez, então, a pergunta não seja quanto tempo ainda temos, mas quanto da nossa vida estamos realmente presentes para viver?
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