Se é para você, por que precisa que alguém veja?
Imagem ilustrativa.
MÔNICA BASTOS | Algumas pessoas dizem que se arrumam para si mesma. Outras dizem que compraram aquele carro porque sempre sonharam com ele. Quem compra uma roupa, um relógio, uma bolsa, porque aquilo lhe dá prazer.
Mas se é para você, por que precisa que alguém veja?
Imagine uma mulher que gosta de se vestir bem. Ela tem um vestido, que a faz se sentir bonita. Mas em uma manhã comum, sem compromisso, coloca uma roupa confortável e deixa o vestido esperando.
Nada de errado nisso. Mas se ela diz que se veste para si, por que aquele vestido precisa de uma ocasião para ser usado?
Talvez porque, muitas das coisas que fazemos por nós, tenham um segundo destinatário: o olhar dos outros.
Um homem compra o carro que sempre quis. Mas quando sai dirigindo, talvez até diminua o volume do som para ouvir algum comentário.
A casa também pode seguir o mesmo caminho. Escolhemos a decoração porque gostamos. Mas quando alguém entra e diz: “Uau! Que casa linda!” parece que alguma coisa se completa. E não há nada de errado em gostar de elogio. O problema começa quando não basta ter. É preciso mostrar.
Não basta viajar. É preciso publicar. Não basta conquistar. É preciso contar. Não basta cuidar do corpo. É preciso que alguém perceba o resultado. E, pouco a pouco, podemos confundir: viver e parecer estar vivendo.
Nunca tivemos tantas possibilidades de mostrar nossa vida. E talvez, por isso, tenhamos começado a viver algumas experiências já pensando em como elas serão vistas.
O restaurante deixa de ser apenas uma refeição. Passa a ser também um cenário. A conquista deixa de ser apenas nossa. Passa a precisar de testemunhas.
O que sobraria das nossas escolhas se ninguém pudesse vê-las? Se ninguém soubesse onde você foi nas férias, você ainda escolheria aquele lugar? Se ninguém pudesse curtir sua fotografia, você ainda gostaria de publicá-la?
Não há nada de errado em querer ser admirado. Gostamos de reconhecimento, de elogios, de causar boa impressão. O problema não está em ser visto, mas em precisar ser visto para sentir que aquilo tem valor.
Existe liberdade em fazer algo que ninguém vai saber que você fez. Fazer uma viagem e não publicar tudo. Fazer uma gentileza sem postar. Porque, quando ninguém está olhando, surge uma pergunta: isso ainda me faz feliz?
Talvez amadurecer tenha um pouco a ver com descobrir que nem tudo precisa impressionar. Que podemos gostar de alguma coisa sem precisar convencer ninguém de que ela é boa. Que podemos ser felizes sem produzir provas. Talvez a vida fique mais leve quando deixamos de transformar tudo em vitrine.
No fim, não se trata de deixar de se importar com o que os outros pensam, mas de perceber quanto das nossas escolhas ainda seria feito se não houvesse plateia.
Talvez, de vez em quando, seja bom fechar as cortinas, guardar o celular, desligar a câmera e ficar sozinho com aquilo que escolhemos. Sem aplausos. Sem curtidas. Sem testemunhas. E perguntar: Se é para mim, por que preciso que alguém veja?
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